Beduína
Por serem locais secos, os desertos são ideais para a preservação de artefatos humanos e fósseis. Eu vivi em um por cinco anos, e apesar de serem silenciosos, meu tempo nele foi ensurdecedor. Vira e mexe ainda sinto zumbidos nos ouvidos.
Faz parte do coração humano entrar em uma relação com a esperança de que jamais morrerá de sede. Vivemos pelo fascínio da amplitude, acreditando na miragem de que aquela imensidão é liberdade.
Uma relação violenta é, aos meus olhos, como uma viagem pelo deserto.
No início, tudo o que eu sentia era uma brisa suave. Ele trazia ciuminhos bobos, pedidos de "avise quando chegar" e uma vigilância que eu, treinada pelo mito do amor romântico, li como cuidado. Eu achava que a poeira que se levantava era apenas um incômodo passageiro, um preço pequeno a pagar por um horizonte que parecia infinito.
Mas a brisa nunca para de soprar. O que eu chamava de zelo tornou-se vento forte que começou a me cortar. Eu me tornei uma especialista em suportar o insuportável. Vivi sob calorosas humilhações e xingamentos para tentar diminuir meu valor e o frio extremo das noites de tristeza e solidão acompanhada.
Eu me colocava, por ordens da vida e da coragem, como uma beduína vigilante; provia o básico, o teto e o pão, enquanto ele era o vento seco que tentava me convencer de que minha fonte era escassa.
Eu não lembro do primeiro tapa. O meu cérebro fez isso para me proteger, mas eu lembro da cabeçada na testa. Lembro do som do osso contra o osso por causa de uma camisa manchada e de uma resposta atravessada.
No momento em que devia ter ido, eu tentei construir abrigos com as promessas dele, acreditando em cada "nunca mais" e "me desculpe" falsos.
Houve uma briga que, depois de levar tapas e ouvir absurdos, corri para a cozinha e peguei uma faca, sentindo o pulso vibrar. Ali ele perdeu a bravura e ver o agressor acuado no banheiro revelou a covardia que habita o centro de toda miragem. No dia seguinte, desci as escadas para trabalhar com o rosto roxo, carregando o peso de manter a engrenagem da vida girando enquanto minha dignidade estava em frangalhos. A minha coragem foi sendo testada até o limite da minha humanidade, e despertou em mim um monstro que eu não conhecia, mas que foi necessário para que eu não fosse devorada.
Num outro momento, tempos depois, ele me dava flores, religiosamente, todo domingo. Eu não aceitava, mas ele insistia em colocar aquelas merdas num vaso sobre a mesa.
- Não adianta você me dar flores hoje, e me bater com o vaso amanhã.
Eu aprendi, da forma mais bruta, que flores não curam fraturas. Flores, pra mim, não têm cheiro de amor. Eu estava no meio de uma tempestade de areia.
O fim não foi um suspiro, não foi uma denúncia, nem foi um acordo. O fim foi um grito. No dia 31 de dezembro, enquanto o mundo brindava recomeços, eu rompi a crosta daquela terra seca e gritei muito alto, pedindo desesperadamente que ele simplesmente fosse embora. Minha vida era um deserto escaldante.
Ele ainda tentou voltar, com a mentira de um novo emprego e a farsa de um apartamento que nunca existiu, e eu, sem saber dizer o motivo, cedi abrigo. Eu precisava me livrar daquele tormento, daquela nuvem pesada de poeira sufocante.
O fôlego final veio com um abajur quebrado no rosto dele após uma ofensa e uma ordem definitiva. Eu levantei e corri. Corri para qualquer direção, sem olhar para trás, acreditando finalmente que o deserto não tomava todo o universo, mas que eu só teria certeza se saísse dali.
Hoje, estou curada, mas ainda sofro as erosões que mudaram o meu ser. O deserto deixou gatilhos que disparam ao menor sinal de cerceamento da minha liberdade. Se recebo uma promessa não cumprida ou percebo um controle disfarçado, a ira borbulha. E, ao menor sinal de brisa, quebro copos ou garrafas. Se for preciso escolher entre minha paz e a ordem das coisas, as coisas serão sacrificadas.
Interessante é perceber, enquanto escrevo isso, que o vidro é exatamente o resultado da areia que foi submetida a uma altíssima temperatura. E que seja neles que explodo minha ira.
Para quem vê de fora, pode parecer um ato violento. Acontece que eu passei pelo fogo e me tornei algo que ninguém poderá mais moldar.
Comentários
Postar um comentário