Tarântula
O fim começa por fora, mas se anuncia nos nervos.
Quando expostas à substâncias estranhas, como um veneno que satura o ar, as aranhas não planejam uma queda para se salvarem, mas iniciam uma coreografia de espasmos violentos, desordenados, que prercorrem cada articulação.
Sob o efeito do que a intoxica, ela não ataca; se recolhe em uma tentativa desesperada de autoproteção. As quelíceras, antes voltadas pra fora, curvam-se para o centro, fechando-se contra o próprio corpo. É uma reação involuntária à morte iminente.
A tarântula habita a borda superior da estante, onde a luz do quarto não alcança plenamente. Estática, parece um adorno de veludo bruto contra o amadeirado do móvel. Não há pressa em seus membros; existe apenas a presença absoluta de quem sabe exatamente onde termina o seu corpo e onde começa o abismo. Ela é o ponto escuro que interrompe o vazio, o verbo que ainda não foi conjugado.
Lá de baixo ele a encontra. Sente-se seguro na distância e do seu lugar pode admirar a arquitetura daquela forma estranha sem ser tocado pelo que ela carrega, numa estética de sombras e silêncios. Ele começa a falar. Sua voz é mansa, tateando o ar com palavras que buscam traduzir aquela quietude em algo que ele consiga nomear.
Ela, lá no alto, sente a vibração do som como um toque na pelagem. O ritmo da língua dele dita o ritmo da imagem dela. Naquele instante, a iminência do veneno não é dor; é apenas uma possibilidade latente entre dois estranhos que se reconhecem sem se tocar.
O verbo, então, se materializa. O que era admiração torna-se ressonância, e a voz dele, antes distante, agora satura o ar do quarto como aquela substância estranha que altera os nervos. Ela desce teia abaixo. Não para caçar, mas porque foi seduzida pela própria gramática que a descreve. O toque, que antes era apenas vibração sonora, torna-se pele, desejo e vertigem.
Ele a convida para dentro de seus próprios abismos.
A fronteira se dissolve pela vil substância do desejo desmedido.
Ela se entrega ao chamado, destilando uma sede que ignora limites, acreditando que a intensidade é o único oxigênio possível.
Já sem se reconhecer como perigo, nem identificar o risco ao outro; o mundo torna-se um borrão de urgência e o veneno que carrega nas quelíceras confunde-se com o próprio sangue.
O sentido da preservação se esvai.
Nesse estado, cada movimento é um transbordamento. Ela clama pelo som daquela voz, busca o rastro daquela língua, quer o verbo em carne, ela quer tudo. A embriaguez transforma a prudência em vertigem.
Flutuando para o abismo dele, esquecida de que é feita de uma matéria que, em excesso, paralisa.
Diante do transbordamento, ele estanca. No exato instante em que ela se projeta, a encantecência intoxica o ar.
E ele, que antes admirava a estética das sombras, agora sente e reconhece em si o gosto amargo da vil substância que também percorre seu próprio peito.
Ele a nega.
E num espasmo de pura sobrevivência, ambos se contraem. Ao tentarem salvar-se da realidade, acabam por injetar em si mesmos a paralisia. Suas quelíceras se curvam para o centro, fechando-se contra o próprio corpo, em uma reação involuntária àquilo que ninguém soube como nomear.
Resta a fonética robusta de tudo o que não pôde ser dito. No canto mais escuro do quarto, onde a luz não alcança, ambos agora habitam a mesma decomposição de estado, desarmados, exilados na própria carapaça. Eram eles verbo, eram eles veneno.
A encantecência é grande demais para ser processada sem danos.
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