27 Agosto, 2011

Não cultivei amigos. As flores aqui não vingam. Meus móveis duram pouco. Minhas roupas rasgam logo. Sempre perco a hora. Sempre esqueço quem e o que. Se é torto, eu vou em linha reta. Se é em frente, caio para os lados. Toda manhã respiro e tento. Toda noite está anotado um fracasso. Mas amanhã vou respirar e tentar.

Até!

Quando os olhos estão virados para lados diferentes, é impossível seguirem na mesma estrada.

De perto ninguém é fofo, engraçado, bacana... ou pouca gente, de perto, não é assim. Um rosto bonito não é o suficiente. Nem o indizível. Aquelas coisas que se falam, que um sorriso ou outro explicam...

Há alguns anos atrás desisti de certas coisas. Hoje minha idéia não mudou muito. A gente um dia se cansa de tentar, machuca a si e aos outros, descobre que nada é substituível, mas outras ocupações - às vezes - funcionam.

Com o tempo, a gente descobre que o relógio todos os dias faz 24 voltas inteiras. Nem mais, nem menos. Tempo o suficiente para todas as coisas, inclusive mudar a direção do olhar. E assim o calendário dá uma volta, outra, outra... e a vida segue.

Não é sem dor, mas se a vida vai, pra que mais?

15 Agosto, 2011

O leite derramado

Não quero seguir os dias assim.

Quiçá essa criança cresceu como deveria!?
O que é "como deveria"?

Não lhe faltou amor... mas amor sem compreensão, paciência e qualquer outro temperinho aí, é um quase amor. O que é amor de dentro e amor biológico? Dizem que paixão é química, amor só pode ser biológico. Ou sociológico. Rá. Faz mais sentido.

Temos olhos parecidos e uns sorrisos bem semelhantes. De perfil somos quase iguais. Mas ele é ele e eu sou eu.

Mas dá umas pontadas ver as fotos daqueles 1986, 1988... dá sim. Os olhos insistiam em brilhar, dia após dia. Hoje tem que acender o lume, senão apaga! É sim. Tem que seguir um dia depois do outro, do contrário vai tudo muito depressa. Começa a fazer uma coisa, larga no meio para fazer outra, e quando se deu por si, esqueceu de terminar, de ser, de fazer, de ligar, de pagar. E fez mil coisas. Então tem mesmo que acender todo dia. Desculpa. Não é culpa sua nem minha. Mas tem que acender.


Eu não conheço como é "como deveria". Pra mim foi o que tinha que ser. E se não foi, também é tarde demais. Mesmo que esse cheiro de leite queimado fique... tem que saber que é tarde demais.


13 Agosto, 2011

" "

Há um silêncio profundo... e neste lugar não costuma haver silêncio.

Quando desses momentos, não lembro o depois. Não sei se porque é forte, doloroso, trabalhoso, rompante e explosivo. Se é como quando nascemos, e tem tanta coisa ao mesmo tempo... de repente respirar. Ou se é feito mesmo para esquecer, se esse depois nem existe. Ou nem esse silêncio. Poderia ser eu de ouvidos tampados - sem me dar conta. . .


Não... está mesmo silencioso demais. Não estava assim há um tempo atrás. Não... mas quando foi? Também não lembro. Foi uma cutícula de carne dura, uma partícula de poeira, foi uma ausência, foi umas das muitas coisas e sons e tudos que estavam aqui agora mesmo? Não sei e que agonia saber? Agonia?! Não... entre a causa e o resultado, este silêncio profundo é mais denso e pesado. Entre aquilo que foi e sabe-se lá o que será este silêncio profundo pega o peito com a mão e ele é forte! Muito forte... é um Golias que os pulmões tentam acompanhar, porque nem eles se lembram como agir. Neste lugar não costuma haver silêncio.

01 Setembro, 2009

Esse não é um discurso otimista

Nesse exato momento, só o aperto se faz presente. Deixar para trás, de forma definitiva, todas os vampiros: abrir a porta, levantar a cabeça, respirar fundo, e seguir na brisa fria do inverno. O mundo não me dá medo. A sensação é boa. O arrepio meio do novo, meio da temperatura baixa, e o olhar para si mesmo, transformam a jornada em um cotidiano quente.

Posição fetal no colo alheio foi como mergulhar e bater com a cabeça no fundo. E quando você emerge, tudo é diferente. Estive submersa até perder o fôlego, até sentir meus pulmões doerem e meu olhos se assustarem. Foram minutos que jamais poderiam ser vividos em outra atmosfera, a não ser aquela. Aquela secreta. Ninguém, ninguém sabe - nem pode saber. "Seu corpo ouve, sua voz não precisa sair". Ninguém ouviria.

Prefiro não pronunciar, nesse local e em nenhum outro, as justificativas da vida. Prefiro os fatos. Prefiro os passos dados as divagações do "e se..." e, pior do que essas, são aqueles que deixam as lamentações estacionadas no peito.

As lesões nem sempre são reversíveis. E o mapa mostra inúmeras direções. Sabendo disso, corto os cabos que me prendiam a qualquer coisa anterior, faço as malas e partirei. Nem até breve, nem adeus. A vida é gigante demais para se resumir em meras despedidas ensaiadas. Ela não acaba aqui. Ela estava acabando lá.

O prazer do silêncio compreendido, e ouso chamá-lo concedido, é insubstituível, mas não se pode - e nem quero - ele por todo o tempo. Nem por toda a vida. A vida é gigante demais.

10 Agosto, 2009

Envelheço na vivacidade

Em poucos dias Vicente completará o 1 ano de vida. Passou rápido. Porque quando ele chegou, tudo era quase muito novo. Eu já não trocava fraldas há no mínimo 6 anos. A casa já não tinha cheirinho de bebê, os móveis eram velhos, os dias longos e no armário quase não havia biscoitos.

Era um mioma e me assustava, de repente virou uma cabeça de 26 semanas, e que naquele instante se mexeu. Sem maiores passeios do ultrassom, gelei, e disse "É menino". O médico só confirmou o que eu já sabia: mais um homem para a minha vida tão cheia de testosterona.


Interessante foi a reação do Gabito, preocupado com a notícia "Mãe, então eu vou ser o pai do meu irmão?" Foi ai que demonstrou um senso de responsabilidade que confortou meu coração - estamos fazendo o trabalho bem, apesar dos equívocos, não? - dizendo entre as linhas que Pai é aquele que ama, cuida, ensina, ri e também educa. Que pai eram aqueles que estavam ao lado. Ele nunca ligou a biologia da paternidade com a físiologia do amor paternal.

Foi uma gravidez veloz: trabalho, a procura de um lar, roupinhas guardadas, coisas novas, consultas. Foi tão rápida que no momento em que o médico me mostrou aquela coisinha lindinha de 53cm e 4,010Kg, eu conversei, ele respondeu e eu finalmente fiquei aliviada. E logo ansiosa para amamentar. Nem me darei ao trabalho de descrever o que é amamentar. Quem nunca fez, jamais entenderá. O resto, compreenderá.


Ele teve fases de só chorar, ele sempre acorda sorrindo pela manhã, come como um danado, faz quase tudo ao seu tempo, ainda não articula palavras pequenas, tem obcessão por ralos, prefere música a tv, tira todas as panelas do armário enquanto faço nosso almoço, agarra nas minhas pernas e entra embaixo das minhas saias, gosta muito de bater perna na rua, é apaixonado pelo irmão, sorri para Deus e o mundo e funciona a 500Volts por segundo.

Estamos completando o primeiro ano juntos. Celebramos vida sobre vida.

21 Junho, 2009

Quando amar é crime

Todos nós pecamos ao amar. Mal sabemos dar conta de nossos defeitos; barriguinhas salientes e a burlada no sistema. Alguém diz que vai para a academia, e promete entrar na tal forma antes das primeiras flores da primavera. Outros sorriem, meio sem jeito, e até procuram como regularizar situações, documentos e burocracias. Abrimos mão de tudo isso logo ali na esquina, porque bem ou mal, teremos satisfações em troca. Se por coisas simples ou que merecem uma certa dedicação nos perdemos ali e acolá, damos conta de amar?

O outro é sempre aquilo ou aquela coisa, tem borogodó, mas umas manias péssimas, que irritam e irrigam a brancura dos cabelos. Não incondicionalmente, mas amamos sobre condições. O prazer é quem determina o tamanho do amor. Mas tal qual burlar ou se 'desleixar' (porque não acredito fielmente nessa coisa e não achei melhor palavra), amar também é um crime.

Salvo em condições fabulescas - e em algumas delas nem assim - viver em companhia de alguém pressupõe uma lista imensa de afazeres burocráticos, um esforço físico sudoríparo, um dar se receber; aquele que provêm o bem-estar se vê digno de receber uma admiração e submissão sacras, e as aceitam de forma ilusória.

Um homem resolve trocar o trabalho que o enobrece por uma dedicação total àquela que povoa seu íntimo, deseja-o apesar das rugas. Esta dedicação, tão encantadora vista de fora, torna-se a prisão alheia. O sacrifíco, a sacralização do ato ou modo, é e será sempre cobrado. Não obstante, exige-se do outro aquilo que fazemos. Queremos o amor do outro como o amamos. Se temos um ao outro, quem te telefona? Se me deito todos os dias ao seu lado, para quem você precisa contar como foi seu dia?
A necessidade do eu te amo vem da obsessão
desastrosa pela afirmação do injusto eu te basto.

Os amigos falaram tão bem do casal harmonioso, sempre um ao lado do outro, dividindo horas e tarefas, viagens, a educação dos filhos. Do quão dedicado ele era. Bastava colocar o pote de margarina no final e tudo estaria como deveria ser. Um segredo: dentro do pote há víseras e sangue. Ferimentos que nem a perícia consegue enxergar. O instrumento com o qual tanto sangue é produzido não é corto-perfurante ou de fogo. É de sofrimento psicológico, da angustia de tentar alcançar aquilo que o outro quer, e tantas vezes não ser o bastante. É de um jogo de manipulação e aparências, atrás de lágrimas no banheiro e uma necessidade de sair correndo, ver-se livre.

Amar nos torna animais acuados e ameassadores na mais doce palavra. Um grito agressivo em público carrega um amargo rancor de palavras já sabidas e ouvidas no aconchego do lar. E sabem como é a lei dos animais... Darwin já conversou conosco algumas vezes.

Esse crime hediondo que praticamos nos iguala a pequenas e não menos famintas larvas. Nos alimentamos da decomposição da alma, da satisfação secreta de vê-lo tentando, dia após dia, suprir as nossas próprias sensações, do ato egoísta de não reconhecermos a identidade do corpo ao nosso lado. Quando, já cansados de nos entregarmos a uma busca sem objetivo alcançável, explodimos na concessão do amor próprio, deliberamos pela liberdade, e o senhor do engenho se propõe a pagar qualquer preço pelos nossos serviços.