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Memórias são a paisagem testemunhada no instante em que o olho rasga a janela do trem.
Estamos aqui.
Se migrarmos, de modo febril, vagão por vagão, obstinados, a passos que tentarão, em vão, alterar a velocidade, preocupados em chegar no fundo dele, presenciaremos cenários que desfilam ao avesso dos nossos olhos.
Se nos movermos com essa insolência em direção ao maquinista, avançando pelos corredores, hipnotizados pelo controle, pelo fetiche de decifrar o condutor, a topografia que estará lá fora será reduzida a um borrão. Todo o desgaste da carne, falsamente imperceptível, trará a ilusão de que as nossas projeções, entre fomes e delírios, detêm alguma soberania sobre a rota, como se fôssemos nós os comandantes.
Mas, e se pararmos agora?
E se estacionarmos o corpo exatamente onde nos encontramos? Sem a urgência do ponto de chegada. Sem a obsessão pelo controle e sem o peso do que ficou esquecido nos vagões do fundo?
Se simplesmente pararmos agora... se abandonarmos a disputa contra o motor e pousarmos a fronte contra o vidro... contemplaremos o exato instante em que o cenário se inaugura. Este exato instante do nascimento de uma memória.
A floresta não se repetirá. A cada guinada dos trilhos, a leste ou a oeste, a folhagem irá reconfigurar sua densidade sob a ação da luz. Nenhuma árvore será vista do mesmo ângulo além da primeira vez. O horizonte vai se transmutar enquanto a máquina avança, oferecendo a calmaria de quem aceita a suave ideia de, simplesmente, prosseguir.
Estamos, agora, na intersecção entre onde pisamos e para onde o trilho nos leva, dentro do exato minuto possível.
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