Eu te amo, sem te amar.

Ela o observava, cheio de linhas duras e recuos calculados. Ele trazia o desapego como um hábito elegante. Mas o magnetismo de duas mentes que se testam destrói qualquer plano de segurança. Quando as primeiras confissões começaram a vazar pelas frestas, ela sentiu o juízo perder a tração. Para não sufocar com o tamanho do que se acumulava no peito, transformou-o em texto.

Escrever seria o álibi perfeito. Sob o disfarce da ficção, ninguém precisaria pedir desculpas. Afinal, palavras organizadas são uma mentira bem costurada, uma distância segura.

Ela despertou, recolheu as peças de sua intensidade espalhadas pelo chão, vestiu-se e foi embora.

A despedida silenciosa não foi pacífica; doeu. A falta tornou-se tão espessa que o papel permaneceu em branco. No isolamento da estrada, ela descobriu que tentar esquecer era uma forma de continuar morando nele.

Com uma canção longa, circular, ele acenou no meio do vazio. Foi buscá-la no escuro que ela usava como escudo.

Ela estendeu-lhe uma mão e, na outra, carregava a velha mentira de que ainda era possível manter distância.

O aprofundamento é uma correnteza que, quando encontra terreno propício, escava o chão por caminhos que a lógica desconhece.

A intimidade ignorou os bloqueios e se construiu por outros sentidos. Ali, a matéria daquele espaço virou trilha sonora para palavras que tropeçavam, desejo estendido por um dia inteiro, vertigem de estados alterados e o recolhimento terno da manhã para dois ombros alinhados.

Naquele quarto, primeiro eles confiscaram as cores do dia, desligaram o barulho da rua e, por fim, aboliram o tempo. O desejo os empurrava para dentro daquele espaço etéreo, suspenso do ordinário.

E ambos, ali, num acordo tácito, ardente como o estalo de um fósforo no escuro, desistiram de conter o fluxo, ocupando território na mente um do outro.

A porta se fechou, deixando a vírgula do lado de fora.



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