Antes que o Sol traga-nos as cores
A desonestidade emocional funciona como um artifício de segurança que permite ao desejo existir sem o risco provocado pelas expectativas: é uma renúncia deliberada à coerência, um pacto de cegueira temporária onde os envolvidos aceitam a ilusão da finitude para que a entrega possa ser absoluta. Ao fingirmos que não haverá desdobramentos ou consequências, as defesas do ego se dissolvem e abrem espaço para o descompromisso com o futuro, tornando a liberdade um solo fértil e transformando o agora em um território autônomo, sem as burocracias do afeto.
A cidade se estende quieta, exposta sob o neon da loja de conveniência, num palco asséptico onde o frio do ar-condicionado tenta, sem sucesso, domesticar o bafo da noite que invade o recinto a cada abertura da porta automática.
Ela ocupa o centro daquela luz branca, carregando a vivacidade de quem habita casas cheias e dias saturados de cor, enquanto busca um vinho para prolongar o fôlego da alma.
Ele, perdido em uma prateleira qualquer, cultiva a própria ausência em seu altar niilista, movendo-se em um preto e branco particular que o protege da desordem do mundo lá fora.
Billie Holiday emerge das caixas de som, derramando sobre o piso de cerâmica uma sofisticação que o ambiente não parece comportar. Ele, dentro da sua esperança vergonhosa de que a beleza ainda sobrevive como um erro de sistema, encontra o discreto sorriso dela celebrando a alma desconhecida capaz de escolher aquela trilha no meio da sua madrugada.
Os olhares se cruzam na altura dos balcões de fórmica enquanto os pedidos se sobrepõem: o Camel dele e o Carlton dela, compartilhando o mesmo vício de queimar o tempo até que ele vire cinza sob a luz do poste.
- Boa noite.
Num educado sussurro que atravessa o ar estéril, soando como uma invasão privada que os empurra para o asfalto.
Ela busca a umidade da noite, acendendo seu cigarro enquanto as últimas notas do saxofone se prendiam às vitrines. O estalo da porta atrás dela trouxe a sombra dele, e o riscar do fósforo sinalizando a mesma recusa em deixar o momento se dissolver antes que a melodia encontrasse o seu fim.
Enquanto tragam profundamente seus cigarros, a voz de Peggy Lee começa a deslizar pelos alto-falantes e transforma a febre em uma certeza fisiológica que encurta a respiração. O reconhecimento do ritmo dispensa explicações, e o convite silencioso da mão estendida dele encontra o consentimento absoluto dela, guiando-os por uma trajetória onde a melodia mental de uma paixão súbita transforma a distância até o apartamento em uma transição necessária entre o mundo dos outros e o território da carne.
A porta se fecha e o silêncio do apartamento é ocupado por uma gravidade que puxa um corpo contra o outro sem resistência, iniciando uma exploração onde o primeiro toque nos lábios acontece com a delicadeza de quem descobre uma nova língua. As mãos dele percorrem as clavículas numa reverência que desmente o cinismo habitual, enquanto ela se entrega ao contato com uma vivacidade que ignora qualquer reserva, permitindo que a pele responda ao calor com um arrepio que percorre toda a espinha. A curiosidade inicial dá lugar à confiança e não admite mais lentidão, transformando o ambiente em um campo de forças onde as peles se reconhecem no atrito e a pressão sobe, libera tempestades represadas, até que o controle seja apenas uma memória distante.
O ápice os atinge ao mesmo tempo em um instante de suspensão total, um grito mudo que esvazia os pulmões e faz com que o mundo, finalmente, pare de girar.
O silêncio que se instala após o colapso é apenas matéria líquida que preenche as frestas entre os corpos que agora tentam reencontrar o caminho de volta para a própria respiração: o ritmo cardíaco vai cedendo, desacelerando, até que as batidas se tornam apenas um eco da tempestade anterior, permitindo que a exaustão se transforme em abrigo.
Ela trouxe uma luz que penetrou as camadas de gelo do isolamento dele, e ele ofereceu o abismo necessário para que a intensidade dela pudesse repousar, mergulhando ambos em um sono leve onde os membros se acomodam sem posse, conscientes de que aquela sintonização exata é uma anomalia, um evento único que não encontrará tradução no mundo que espera lá fora.
Antes que a primeira luz comece a desbotar o noir do quarto e devolva as cores reais aos objetos, ela desperta e recolhe as peças de sua vivacidade espalhadas pelo chão, vestindo-se sob a vigília atenta dele que permanece imóvel entre os lençóis. Seu olhar acompanha a cena final de um filme que não terá sequência, guardando cada movimento numa memória que será preservada intacta, longe da erosão do cotidiano.
Ela parte, deixando para trás, entre o emaranhado do lençol, uma história que soube exatamente a hora de acabar, selada pela mentira de que, talvez, nada daquilo tenha acontecido de verdade.
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